12.09.2014

Sobre mulheres, liberdade, motos e moto clubes (Parte 2/2)

por Marco Panzer

Nota: quando me refiro a “motoqueiros” no texto, não estou excluindo nenhuma categoria. Não é o termo aqui que importa. Motoqueiro, motociclista, piloto de moto, não é essa a discussão que proponho. Porém, como chamo minha motocicleta de motoca, e sempre chamei, refiro a mim mesmo de motoqueiro. Então, não se prenda a isso durante a leitura.

Parte 2: Liberdade e moto clubes.

Certo, a maioria dos moto clubes (moto clubes mesmo) são exclusivamente formados por membros homens. Sua diretoria composta apenas por homens e suas categorias de membros e prósperos, homens.

A explicação é muito simples, por mais que a versão real seja difícil de saber: os moto clubes/moto grupos surgiram em um contexto pós-guerra no qual os soldados se sentiam isolados pela sociedade, já fora dos exércitos, muitos homens jovens que sentiam falta de hierarquias, regras e, na maioria das vezes, diversão em grupo com os amigos (homens), como faziam durante seus serviços nas forças armadas. Soma-se este contexto com o mercado crescente das motocicletas nas primeiras décadas do século 20, e pronto. Lembrando que muitos destes soldados pilotavam motos durante os conflitos, e provavelmente já planejavam formar grupos de motoqueiros quando voltassem para suas cidades. Por isso, teoricamente, moto clubes são grupos de homens para homens. No entanto, como já foi dito: as coisas mudam com o tempo.

Hoje (praticamente desde sempre), muitos grupos e moto clubes aceitam a adesão de mulheres como membros oficiais. Em minha opinião, isso é muito legal, pois, deixa de separar as coisas e aproxima ainda mais as pessoas que gostam do universo motociclístico. Se é mulher ou homem (ou outros gêneros), que seja. Isso não importa. Moto é moto, caráter é caráter, e é isso o que conta.
Sei que é muito citado em vários textos, e realmente é digno de citação, o fato do moto clube mais velho (registrado) ser feminino: o Motor Maids, nos EUA, que teve sua fundação em 1940 e contava, já na fundação, com 51 integrantes (todas mulheres, veja só), e hoje conta com mais de 1.200 integrantes nos Estados Unidos da América e Canadá.

Bom, cito o Motor Maids para nos lembrar o quão difícil é fundar e manter vivo um moto clube, com pessoas realmente engajadas, dispostas a fazer a coisa acontecer e se dedicar ao que seu clube se propõe. E estas mulheres, no meio de conflitos, guerras, abandonos, filhos e uma sociedade machista ultraconservadora fizeram diferente, e mostram que não é a moto que faz o caráter, e sim, apenas um complemento que nos permite aproximar as pessoas envolta de um bem comum (Calma! Explicarei meu ponto de vista sobre o “caráter” formado pelas motos em outra postagem. Fique de olho).

Voltando a questão dos moto clubes, cada um possui suas regras internas. Alguns só para motos vermelhas, pretas, amarelas, motos esportivas, customizadas, cilindrada alta, baixa, membros e prósperos com mais de 25 anos (como é o caso do Panzer Riders MC). Mas, no fim das contas estão todos na estrada compartilhando das mesmas sensações.
O interessante é o fato de que a maioria dos clubes se dedicam exclusivamente aos passeios, encontros, lazer entre amigos. Isso é muito bom também, diga-se de passagem. É sempre bom passar umas horas confraternizando com os irmãos, trocando aquela ideia sobre motos, estradas, passeios, vida e tudo mais. Mas, também existem clubes que se prestam a realizar ações beneficentes, como uma associação de verdade, prestando serviços à comunidade, realizando palestras, angariando fundos para determinada entidade beneficente, etc., e tal. E isso também é muito legal.

Se o clube/grupo não possui este foco, e a ideia é apenas andar de moto e ponto final, está ótimo. Mas, acredito que realizar atividades em prol a alguma coisa/entidade/associação/pessoa, também faz parte da coisa, e ajuda tanto na adesão de novos integrantes para o clube quanto para desmistificar aquela imagem de “bandidos” que (ainda, mas não sempre) segue os moto clubes.
Afinal de contas, existem milhares de moto clubes e moto grupos com milhares de integrantes por todo o mundo. Claro que um ou outro faz questão de ser outlaw ou fazer uma cena aqui e outra ali para alimentar a pose de mal. Mas, pense bem: não é possível que todos os integrantes de todos os moto clubes e moto grupos do mundo sejam pessoas ruins que estão a fim de distorcer as coisas e disseminar a imagem ruim de nós, motoqueiros.

Quanto à questão da liberdade, penso da seguinte forma:
(e lembro que esta é minha opinião pessoal).

1º - Existe a liberdade pessoal e a do grupo.



Se você se presa a fazer parte de um grupo/clube, então lembre-se que, além da sua noção de liberdade e vontades, existem as opiniões, noções e vontades de mais uma porrada de gente que faz parte do mesmo grupo que você. Portanto, bater no peito e dizer que você está certo, nem sempre está certo. É muito necessário, como em qualquer tipo de convívio social, saber respeitar sua posição e a posição dos demais, opiniões e opções de cada um. Ouvir e debater os assuntos sempre são os melhores caminhos para que todos se deem bem dentro e fora do moto clube/moto grupo, tanto na estrada, na cidade, em casa, na sede, etc.

2º - Liberdade Pessoal.
Se você é do tipo que gosta de rodar de moto sozinho, ou em dupla, mas sem fazer parte de um grupo em si, lembre-se que as mesmas regras de bom convívio social valem para você tanto dentro quanto fora de um moto clube ou moto grupo. É a velha máxima: “sua liberdade termina onde começa a minha”. Então, é sempre bom ficar de olho aberto para não falar ou fazer besteira. Nada impede de você rodar junto com grupos e clubes. Mas, lembre-se da primeira questão: existe a liberdade pessoal e a do grupo. Se sentir que a melhor opção é rodar sozinho, maravilha, continue e seja feliz. Caso sinta que é hora de trocar aquela ideia com o pessoal do clube/grupo e demonstrar interesse em sua adesão, faça e seja bem-vindo.

3º - A Liberdade do Grupo e suas regras.
Fazer parte de um moto clube ou moto grupo significa fazer parte de uma irmandade. Significa ver seu parceiro de colete como um irmão, mesmo que seja difícil às vezes, e compreender que tudo dentro do clube/grupo faz parte de um “bem maior”, que é o bem e a sobrevivência do clube em questão. Existem regras que precisam ser respeitadas. Lembre-se que, quando você entrou no grupo, se for um grupo com estatuto, regimento e tudo mais, você ficou a par de todas as regras, tudo o que o clube espera de você e tudo o que você espera do clube.

4º - A liberdade em si.
Por fim, penso que liberdade é liberdade, pronto e acabou. Não tem muito segredo. Se você se sente bem em um grupo ou sozinho, carregando uma marca/brasão/colete ou rodando por aí sem fazer a menor questão de dizer que faz parte de alguma coisa, sua liberdade existe de qualquer maneira. Não se prenda a conceitos e regras que prendem você, que, de alguma forma tirem sua liberdade. Caso você se sinta assim, sozinho ou em grupo, reflita e tome uma atitude que melhore a situação. Pronto. Não tem muito segredo.


Penso que liberdade é você se sentir bem independente se está sozinho ou acompanhado. E como já disse, no fim das contas à ideia é andar de moto, pegar estrada, passear e sentir tudo o que a estrada pode nos proporcionar sobre duas rodas. Se sua moto é de baixa ou alta cilindrada, dessa ou daquela cor, se você veste um colete ou não, isso não importa. A estrada é uma só e você pode rodar por ela a qualquer momento. Tanque cheio, pneus calibrados, motor funcionando. Tudo certo. Mulher ou homem... O resto é com você.

Enfim. Por hoje isso é tudo, senhoras e senhores. Fique de olho aqui no site, pois, sempre postarei novos artigos para ajudar (ou atrapalhar mais) a vida de todos os irmãos e irmãs motoqueir@s.

Rodem com segurança e voltem vivos para casa.

***Dedico esse artigo a minha amada Thalita, que, além da vida, compartilha comigo seus gostos por motos e sonhos ao meu lado.

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