12.08.2014

Sobre mulheres, liberdade, motos e moto clubes (Parte 1/2)

por Marco Panzer

Nota: quando me refiro a “motoqueiros” no texto, não estou excluindo nenhuma categoria. Não é o termo aqui que importa. Motoqueiro, motociclista, piloto de moto, não é essa a discussão que proponho. Porém, como chamo minha motocicleta de motoca, e sempre chamei, refiro a mim mesmo de motoqueiro. Então, não se prenda a isso durante a leitura.

Parte 1: Mulheres, motos e mitos.

Muito se fala sobre mulheres que dirigem mal, desatentas, fazendo uma série de coisas no trânsito que não tem nada a ver com o trânsito em si. Realmente, elas existem. Retocar a maquiagem com o carro em movimento, checar mensagens no celular ou encaixá-lo estrategicamente no capacete enquanto espera o sinal ficar verde no semáforo... Sim, é verdade. Desatenção e, às vezes, falta de controle quando sai de moto, pois, é muito pesada, cilindrada demais, muito alta, muito baixa (estou falando das motos). Sejamos francos: isso acontece com os homens também. Não com maquiagem e tudo mais, mas acontece. Um dos maiores “pecados” é confiança demais. Não é?

Mas, não é difícil encontrarmos mulheres que sabem muito bem o que estão fazendo quando o assunto é pilotar uma moto. Afinal, qual o problema? Elas podem não ter o mesmo estereótipo que a maioria dos motoqueiros (homens), podem não fazer ou gostar das mesmas coisas, mas, adoram motos. E mesmo quando não “adoram motos”, gostam da liberdade que suas motos às proporcionam. Podem não entenderem de mecânica, não saber o que fazer quando o carburador estiver desregulado – muitas delas entendem muito mais que alguns homens, acredite –, mas compreendem muito bem o que é pegar estrada, sentir todas as sensações que viajar de moto pode oferecer, tomando chuva, vento, sujeira, calor escaldante e tudo o que pode acontecer pelas estradas. Isso não faz das mulheres menos motoqueiras ou adoradoras de moto do que os homens.

É muito provável que em algum momento você encontre mulheres pilotando por toda parte, estradas, cidades, e pense: “Uau”! Sim, isso mesmo. Aquela sensação mista: de um lado, um pouco de preconceito sexista; por outro, uma curiosidade crescente em conhecer a pessoa, saber quem é, com quem anda, se anda sozinha, se pega estrada de bobeira como você. Sim. Elas existem. E para a surpresa de alguns, o número de mulheres que pilotam é crescente.

Para quem gosta de falar em números, segundo a Abraciclo (Associação Brasileira de Fabricantes de Motocicletas), em 2013, de 1 milhão e 700 mil motos, 425 mil foram vendidas ao público feminino; isso significa 1 em cada 4 motos. Dependendo da região os números aumentam, variando de modelos e marcas. A Suzuki vende cerca de 30% das motos para mulheres em SP, e a Honda, em algumas cidades, pode chegar a 40% das vendas.

Não é por menos. Se levarmos em conta que o número de CNHs (Carteiras Nacionais de Habilitação) habilitadas para mulheres no Brasil, vemos que o número é cada dia mais crescente: de 4 milhões e m 2012 para 4,5 milhões em 2013. Mas, por quê? Por que tanta mulher “tirando carta” e pilotando motos?

Marianne Faithfull no filme Girl on a motorcycle, 1968.
Simples: a gente não vive mais no tempo dos seus avós, meu amiguinho, nem dos seus pais conservadores. E por mais que a maioria brasileira seja machista, as mulheres estão buscando e conquistando seu espaço. Existe esta necessidade, pois, estão cada dia mais independentes, tanto em relação à sociedade quanto a família e trabalho. E nada melhor que uma bela moto para ajudar neste processo de “libertação”: são rápidas, relativamente baratas e de baixo custo (diferente dos carros).

Em minha singela opinião, não existe divergência ou aquela velha e marqueteira “guerra dos sexos”, homens são melhores que mulheres ou coisa assim. Nada disso. Existe uma necessidade que é preenchida por um produto. A necessidade de comprar uma moto por parte das mulheres. Depois nasce o gosto em si pela coisa (claro que algumas já gostam de motos desde sempre, mas, na maioria das vezes, aprende-se como tempo).

Concluindo esta primeira parte do artigo, penso: “Então, qual é o problema? Por que as mulheres não são totalmente aceitas no meio motociclístico”? A resposta também é simples: pelo mesmo motivo que existem (ainda) homens preconceituosos quanto a cargos profissionais ocupados por mulheres, mulheres que não são mais “donas de casa”, patroas amorosas e super passivas em casa. Nada no mundo real foi feito para mulheres fora dos perímetros residenciais. Mas, como diz a música, “os tempos estão mudando”. Na verdade, já mudaram. Você é que parou no tempo e resolveu não prestar atenção.

Continua em Parte 2, “Liberdade, e moto clubes”, que postarei amanhã aqui no site.

Até mais, rapaziada. Rodem com segurança e voltem vivos para casa.

Let’s Ride, let’s Rock! Panzer Riders.

***Dedico esse artigo a minha amada Thalita, que, além da vida, compartilha comigo seus gostos por motos e sonhos ao meu lado.

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